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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

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JS-PDT: 30 anos de história




Everton Gomes e Wendel Pinheiro



A história da Juventude Socialista do PDT remonta às lutas tomadas pela Ala Moça e, mais tarde, pela Mocidade Trabalhista no PTB pré-golpe de 1964. 
A Ala Moça, fundada em 1945 na cidade de Porto Alegre-RS, sob a liderança de Leonel Brizola como o seu primeiro presidente, teve forte influência dos ideais de Alberto Pasqualini. Este novo agrupamento propunha a ser o espaço de atuação política dos jovens varguistas que não tinham espaços nem no PCB, com sua linha marxista-leninista, e nem na UDN - inicialmente, aglutinando todas as vertentes antigetulistas, do espectro liberal-conservador até a Esquerda Democrática (ED). 


Brizola com Getúlio na campanha de Ernesto Dornelles, 1950
                                  

Com o seu crescimento e ramificação em vários núcleos espalhados pelo país, mais tarde foi refundada a Ala Moça, na V Convenção Nacional do PTB em 03 de outubro de 1952, em Petrópolis-RJ. Porém, ela teria uma nova nomenclatura: Mocidade Trabalhista. Seu primeiro presidente foi Feliciano Araújo. A atuação dos jovens trabalhistas no PTB pré-golpe teve maior ênfase na ação político-partidária e nas eleições que a legenda petebista participava. Isto não significava, porém, que existissem quadros que atuassem nas entidades estudantis, como a UNE/UBES e demais Centros Acadêmicos e Grêmios Estudantis. Da Ala Moça e da Mocidade Trabalhista saíram quadros de grande relevância como Leonel Brizola, Fernando Ferrari, Sereno Chaise, Ney Ortiz Borges, Matheus Schmidt, Pedro Simon e Danilo Groff, além de Vânia Bambirra, Herbert de Souza (Betinho) e Daniel Aarão Reis. Alguns quadros da Mocidade Trabalhista inclusive atuaram na UNE durante do início até meados da década de 1960, e também na Juventude Universitária Católica (JUC) e na Juventude Estudantil Católica (JEC) - que mais tarde, em 1962/1963, se tornariam a Ação Popular (AP), que rivalizaria ou comporia com o PCB na direção da UNE e da UBES.


Ney Ortiz Borges



Fernando Ferrari


Sereno Chaise


Com o advento do Golpe Civil-Militar de 1964 e do Ato Institucional n° 2 (AI-2), os partidos são extintos. O PTB não existiria mais, junto com a Mocidade Trabalhista. Com o recrudescimento do Regime Militar, o movimento estudantil tornou-se o centro da oposição à ordem vigente. A partir da edição do AI-5 em dezembro de 1968, com o fechamento total do regime, parcela considerável do movimento estudantil parte para a luta armada, como forma de resistência aos arbítrios cometidos pelo governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974).
O processo de redemocratização se inicia a partir das consecutivas vitórias da oposição nas eleições de 1974 e 1978. Tentando esvaziá-la, o governo de Ernesto Geisel (1974-1979) e de João Figueiredo (1979-1985) promovem uma distensão "gradual e lenta" do Regime Militar, com a lei da anistia aos exilados e presos políticos. Após a perda da sigla do PTB, Leonel Brizola funda o PDT em 26 de maio de 1980. Já se encontrava em gestão a fundação de uma juventude nesta nova legenda trabalhista. Inclusive, a Carta de Lisboa, em meados de junho de 1979, fazia uma grande referência à participação política dos jovens com a reorganização da UNE e estaria, dentre as suas pautas políticas, uma atenção maior aos jovens. Já na recepção de Leonel Brizola em São Borja, em 07 de setembro de 1979, já se aspirava à formação de uma juventude que, a partir de um slogan numa das faixas, propunha: "Juventude Trabalhista, Popular e Socialista". Em 15 de fevereiro de 1981, os jovens social-democratas, trabalhistas, socialistas e comunistas se reuniram no Colégio João Lyra Filho, na cidade do Rio de Janeiro. No I Encontro Nacional, estes jovens fundaram a primeira organização juvenil partidária do período de redemocratização no Brasil, que inicialmente se chamou de Juventude Trabalhista do Partido Democrático Trabalhista (JT-PDT). O primeiro presidente da JT foi Anacleto Julião, filho do legendário líder das Ligas Camponesas na década de 1960, Francisco Julião. 
O Trabalhismo Brasileiro, herdeiro de Vargas, Jango e Brizola, é a expressão doutrinária que estes jovens adotaram, pois ali também nascia o PDT - o partido que concebia, a partir de sua fundação, o trabalhismo como o caminho brasileiro para o socialismo.
O anseio desta nova organização era a construção de um país mais igual e democrático. Sua inspiração se dava com a luta antiimperialista e com as bandeiras do nacionalismo democrático-popular e do socialismo. A JT foi a primeira organização juvenil partidária no Brasil no período de redemocratização.
A Juventude Trabalhista, posteriormente assumiu o nome de Juventude Trabalhista e Socialista (JTS) em seu II Congresso Nacional. Mais tarde, após o advento da Carta de Mendes, e com a perspectiva de um horizonte socialista - a partir de uma leitura de análise do trabalhismo sob a ótica marxista -, a JTS, no seu III Congresso Nacional, em fevereiro de 1985, se transforma em Juventude Socialista do Partido Democrático Trabalhista (JS-PDT).
Passados 30 anos, esta organização vive! Sua história é marcada pela luta em prol do povo brasileiro e pelo socialismo. Poucas são as organizações que conseguem chegar tão longe no tempo com o vigor e fôlego iniciais. De longe, a JS é o movimento de cooperação mais orgânico do PDT, confundindo-se com a própria história de avanços, refluxos e conquistas do Partido. Atuando nas bases do movimento estudantil, comunitário e, agora, intensificando seus esforços no movimento sindical, a JS se constitui até hoje, na prática, numa verdadeira escola de formação de lideranças, quadros teóricos e de militantes da agremiação pedetista, baseado nos princípios nacionalistas, trabalhistas e socialistas, levando o legado e a luta das principais lideranças do trabalhismo brasileiro: de Vargas, Pasqualini, Jango, Brizola, Prestes e Darcy. Presente em quase todos os estados, com congressos estaduais e nacionais regulares, desde a sua fundação em 1981, a Juventude Socialista sempre foi o celeiro de grandes quadros qualificados do PDT e da História do Brasil Contemporâneo.
Hoje, além de atuar no Movimento Estudantil, com a presença de quadros estudantis trabalhistas na UNE, nas UEE's, DCE's, Centros Acadêmicos (CA's) e entidades estudantis secundaristas, a JS ocupa o cenário nacional, formulando as ações e políticas públicas para a juventude. Igualmente, a JS atua internacionalmente na IUSY (União Internacional da Juventude Socialista), da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD) e da COPAL, baseando-se nos princípios de cooperação e solidariedade com os países latino-americanos, africanos e asiáticos e na defesa da autodeterminação dos povos - em especial, na defesa dos interesses dos países periféricos contra os promovidos pelos países centrais e pelas potências imperialistas.
A Juventude, em suas lutas, tem contemplado seus princípios na construção de uma sociedade mais justa, incluindo os jovens - em especial os oriundos da classe trabalhadora, na promoção de demandas e de oportunidades; por um amplo e irrestrito acesso à educação pública, gratuita e de qualidade e ao trabalho digno, sob a inspiração do trabalhismo, além do acesso gratuito à cultura e ao lazer. Demandas que, independente das transformações políticas, sócio-econômicas e culturais, permanecem vivas e intactas como a agenda permanente da juventude brasileira. Este é um pedaço da nossa historia, aqui poderíamos citar as participações ativa na campanha das Diretas, campanha de 89, o "Fora Collor", na defesa contra as privatizações do governo FHC. 
Nossa historia é de luta e assim continuaremos dando seqüência na nossa trajetória!


E nosso grito de guerra é esse: 
É pra lutar é pra vencer é Juventude Socialista PDT!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

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Trabalhismo e marxismo na teoria do PDT com Edmundo Moniz*



Nascido na Bahia, Edmundo Moniz é um dos maiores intelectuais brasileiros e esteve muito próximo de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Foi o elo de ligação entre o nacionalismo e o marxismo. A propósito, outro intelectual marxista e nacionalista que esteve muito próximo de Leonel Brizola foi o gaúcho Paulo Schilling, que se encarregou de projetar a reforma agrária contra o latifúndio, no governo de Leonel Brizola no Rio Grande do Sul.
O grande destaque na história do trabalhismo foi um livro notável de Edmundo Moniz, escrito em 1987, prefaciado pelo historiador marxista Nelson Werneck Sodré. Nesse livro Leonel Brizola é caracterizado como um representante trabalhista de esquerda que aglutinou no PDT “os líderes mais conceituados do antigo Partido Socialista, de uma facção que apoiava Trotsky na luta contra Stálin e de vários dirigentes do PCB como resultante do afastamento de Luís Carlos Prestes”.
O que merece ser observado é que ao contrário da leitura feita pela sociologia da USP sobre Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, Edmundo Moniz achava que o PDT deveria ser o partido dos “antigos e atuais partidários de Trotsky”, visando uma revolução social com a “ascensão do proletariado ao poder”.
Historiador da Revolta de Canudos, Edmundo Moniz enfatizou que esta sublevação foi decorrente da ausência de Reforma Agrária. Então, Antônio Conselheiro pode ser visto como um batalhador da Reforma Agrária.
Edmundo Moniz não deixou de reconhecer a abordagem brilhante feita por Darcy Ribeiro em sua Antropologia das Civilizações. Citemos suas palvras: “Darcy Ribeiro é um dos poucos escritores brasileiros que tratam das leis do desenvolvimento desigual e combinado”. Essa lei foi formulada por Lenin e Trotsky baseando-se em Karl Marx, referindo-se ao fato que a sociedade capitalista desenvolve-se de maneira heterogênea e apresenta várias etapas históricas que se combinam entre si. Isso significa que o processo histórico capitalista transcorre de modo contraditório e desigual, com países atrasados e adiantados, aglutinando diferentes etapas do desenvolvimento. Até mesmo dentro do país se observa esta lei, por exemplo: Piauí e São Paulo ou Ipanema e Realengo.
Edmundo Moniz deveria ser lido por todo militante do PDT, sem falar da atual direção que é alérgica à letra de forma. E partido político sem uma teoria de partido político está condenado a ser uma corriola burocrática. Vejamos o que afirmou Edmundo Moniz: “o Partido Democrático Trabalhista, liderado por Leonel Brizola, tem as condições essenciais para tornar-se a grande vanguarda do povo brasileiro”.



terça-feira, 5 de agosto de 2014

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AS ORIGENS DO TRABALHISMO NO BRASIL




Fábio Melo*



O trabalhismo brasileiro surge como uma corrente política juntamente com os avanços do processo de industrialização no país, a partir da década de 1930. Nesta época as revindicações operárias se tornam cada vez mais constantes no cenário político nacional.
As raízes do trabalhismo brasileiro, entretanto, devem ser buscadas na virada do século XIX para o século XX. É neste período que emergem entre os (até então poucos) operários nas grandes cidades as lutas por melhores condições de trabalho. Estes operários são influenciados basicamente por 3 ideologias que tem origem na Europa: o mutualismo, o socialismo e o anarquismo. Até 1917, é o anarquismo que ganha os corações e as mentes do movimento operário. As greves deste ano, que estouraram no Brasil inteiro, foram lideradas por anarquistas. Nada mais apropriado, afinal o Estado brasileiro foi feito para poucos. As oligarquias governam o país como se governassem uma empresa privada. Não havia qualquer tipo de amparo social deste Estado para com os trabalhadores – as jornadas de trabalho chegavam a durar mais de 12 horas e após anos trabalhando não se tinha qualquer tipo de previdência social. A Revolução Russa (1917), modificou as ideias de muitos líderes anarquistas. Para estes, o movimento operário não deveria mais acabar com o Estado, mas tomá-lo. Foi adotado o marxismo-leninismo no lugar do anarquismo.
Nos anos 1920, as contradições da República Oligárquica se mostraram mais intensas. No plano político, surgiram muitas dissidências ao projeto hegemônico da oligarquia de São Paulo – que dominavam política e economicamente o país. Socialmente, o movimento Tenentista mostrava a insatisfação de jovens militares com a política nacional; o mais valoroso líder tenentista é o Cavaleiro da Esperança Luis Carlos Prestes. Enquanto nas galerias de arte, intelectuais, escritores, poetas e pintores prestigiam a Semana de Arte Moderna, nas reuniões operárias surge o Partido Comunista do Brasil (filiado a 3º Internacional).
No fim dos “loucos anos 1920”, vem a maior crise econômica do mundo, iniciada com o crack da bolsa de Nova York. A crise põe em dúvida os rumos da política e da economia brasileira. A oligarquia se dividiu em torno da seguinte questão: que fazer agora? Continuar com o modelo agro-exportador (prejudicado com a crise), ou investir na diversificação da economia nacional, abrindo espaço para maior industrialização? Com a divisão da oligarquia, rompe-se o pacto café com leite (pacto entre as oligarquias de Minas Gerais e de São Paulo para governar o país). Parte da oligarquia paulista quer continuar com a economia exportadora do café, outra parte quer investir na industrialização.
Neste complicado jogo intra-oligárquico, os opositores dos paulistas formaram a Aliança Liberal, encabeçada pelo gaúcho Getúlio Vargas, como candidato a presidente nas eleições de 1930. Os paulistas e seus aliados, lançaram à presidência o candidato Júlio Prestes. Houve fraude de ambos os lados, mas no fim Julio Prestes vence. Vargas e seus aliados da Aliança Liberal recorrem à revolução política: “que se faça a revolução antes que o povo faça”. Mesmo que parte da elite não quisesse uma revolução popular, a Revolução de 1930 foi uma das mais populares da história do Brasil. O povo participou. Operários participaram. A classe média participou. E assim, Vargas se torna presidente. A revolução foi vitoriosa.
O governo de Getúlio vai de 1930 até 1945. Este período se dividiu em momentos de tensão, de extremismos e de efervescência política. Vargas abraça muitas revindicações do PCB, e quase esvazia o movimento comunista. Com a ascensão do nazi-fascismo na Europa, surge no Brasil o integralismo. Há uma tentativa de revolução comunista em 1935, liderada por Luis Carlos Prestes e que acaba fracassando. Em 1937, Vargas decreta o Estado Novo, um período ditatorial. Em 1942 são consolidadas as leis sociais do trabalho  – a conhecida CLT: Consolidação das Leis do Trabalho - que vinham sendo promulgadas desde 1930 com a criação do Ministério do Trabalho. Também neste período os sindicatos são estimulados. A intensão de Vargas é trazer o movimento operário para dentro do processo de industrialização do país, garantindo boas condições de trabalho aos operários da indústria.
Com o fim da segunda guerra mundial (1939-1945), o primeiro governo Vargas chega ao fim. O país clama por uma organização democrática. Vargas é deposto por militares e organiza dois partidos que tem essências distintas: o PSD (Partido Social Democrático), composto por burocratas do Estado Novo e alguns industriais, e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), composto em sua maioria de operários e sindicalistas. É no PTB que a ideologia trabalhista vai se desenvolver.
Após a fundação do Partido Trabalhista Brasileiro, sob a inspiração de Vargas, o trabalhismo passa por três fases. A primeira que vai mais ou menos de 1947 até 1960 é marcada pela sistematização e elaboração da ideologia trabalhista. A segunda fase, que vai de 1960 até 1964 é marcada pela radicalização dos ideais trabalhistas. A terceira fase, de 1979 até 2004, é marcada pela aproximação e junção do trabalhismo com o socialismo.
A fase de 1947 até 1960 tem como principal figura o teórico Alberto Pasqualini. Trazendo referências que vão do catolicismo ao trabalhismo inglês, Pasqualini elabora uma ideologia trabalhista baseada no que ele chama de capitalismo solidarista. Este capitalismo seria controlado no sentido de se adequar às demandas sociais, diminuindo as desigualdades. O trabalho teria primazia ao capital. O Estado seria conciliador nas lutas de classe. A propriedade privada garantida. Com a morte de Pasqualini, em 1960, a ideologia trabalhista foi se radicalizando muito mais pela prática do que pela teoria. O governo de Leonel Brizola (do PTB) no RS mostrou o quão revolucionário era o trabalhismo brasileiro. Em 5 anos de governo, Brizola construiu escolas, encampou empresas estrangeiras (antes de Cuba fazer sua revolução!) e realizou uma reforma agrária no Estado. E é exatamente a partir da experiência de governo de Brizola, e com a morte do conservador Pasqualini, que o trabalhismo vai se transformar no projeto mais radical da esquerda brasileira.
Inaugura-se, desta forma, a segunda fase do trabalhista brasileiro. É uma fase curta. Dura somente até 1964, pois foi ceifada por um golpe civil-militar.
Ao tomar posse como presidente em 1961 (após a resistência da Legalidade comandada por Leonel Brizola), João Goulart (o Jango) tenta pôr em prática as Reformas de Base. Essas reformas dariam ao Brasil uma nova cara: a de um país mais justo socialmente. Reforma urbana, agrária, econômica e educacional eram as principais pautas das Reforma de Base. Brizola, Neiva Moreira e outros defensores das Reformas de Base eram chamados, nesta época, de nacionalistas revolucionários. Com o golpe de 1964, o projeto trabalhista de nação foi suspenso, caiu-se sobre a sociedade uma longa e cruel ditadura que durou até 1985.
Durante a ditadura, haviam apenas dois partidos: a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB); ambos criados pelos militares. Mesmo que muitos trabalhistas tenham ingressado no MDB, este partido não tinha nenhum grande projeto trabalhista para o país. Ironicamente a população dizia que o partido ARENA era o partido do “sim” e o MDB o partido do “sim senhor”.
Enquanto o Brasil ainda vivia sob as torturas da ditadura, Brizola, exilado político, entrou em contato com as ideias de socialismo e social-democracia em vigor na Europa nos anos 1970. Em Lisboa, no ano de 1979, trabalhistas e socialistas brasileiros, e os exilados, se reuniram para debater os novos rumos do trabalhismo – uma vez que a ditadura estava desgastada e iniciava um processo (“lento, gradual e seguro”) de abertura política. Neste encontro foi redigida a Carta de Lisboa, que se tornou um documento tão importante para os trabalhistas como é a Carta Testamento de Getúlio Vargas. A partir da Carta de Lisboa, os ideais trabalhistas são retomados, mas desta vez como parte de um projeto mais amplo, onde o trabalhismo é o caminho brasileiro para o socialismo; mas não qualquer socialismo, um socialismo original, tipicamente brasileiro, um socialismo moreno. Diz, a Carta de Lisboa: “impõe-se a nossa defesa dos pobres contra os ricos, ao lado dos oprimidos contra os poderosos”.
Quando Brizola e outros líderes recebem a “anistia” do governo militar brasileiro, eles tentam refundar o PTB, uma sigla carregada de história e simbologia. Entretanto, o próprio governo militar dá as três letras que para muitos representava o autêntico trabalhismo, a um grupo de direita, que nada tinha a ver com as lideranças que redigiram a Carta de Lisboa. Brizola e os demais trabalhistas decidem fundar outra sigla. Surge assim o Partido Democrático Trabalhista (PDT), que representa o “auge” da terceira fase do trabalhismo brasileiro. Brizola é eleito governador do Rio de Janeiro, se candidata a presidente em 1989 e até concorre como vice numa chapa com Lula do PT, em 1998. Ao morrer em 2004, Brizola, o último grande líder trabalhista do Brasil, deixou seu legado – o PDT, partido do trabalhismo e do socialismo brasileiro, partido da esquerda nacionalista.
Hoje é preciso que o partido inaugure uma nova fase. Uma fase mais a esquerda. É preciso romper com o sistema neoliberal, ao mesmo tempo implantar reformas políticas e administrativas para que o Brasil chegue ao ideal socialista que Brizola, Darcy e tantos outros trabalhistas defendiam. É preciso que o partido dê espaço a novas lideranças, verdadeiramente comprometidas com a transformação social. Ou inventamos ou erramos, já dizia o educador Simon Rodriguez. Chegou a hora do PDT inventar. Mas inventar a partir da experiência e do legado que o trabalhismo nos deixou. Não podemos nos conformar com um partido distante dos movimentos sociais. A nossa juventude tem a obrigação de ser a vanguarda desta nova fase do trabalhismo no Brasil.



*Historiador e militante da esquerda trabalhista da Juventude Socialista de Porto Alegre






sábado, 2 de agosto de 2014

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GETÚLIO VARGAS: UM ESTADISTA DE ESQUERDA¹



Fabio Melo*
Jonathan Vargas**

No dia 24 de agosto nós da Juventude Socialista/PDT lembramos do maior estadista do Brasil: Getúlio Vargas. Ele saiu da vida para entrar na história; e mesmo em vida já havia marcado profundamente a história do nosso país. Sem dúvida, falar sobre este personagem tão importante, requer um texto mais amplo e mais abrangente, mas escolhemos alguns pontos para objetivar este artigo e permitir que o leitor busque por conta própria mais aspectos sobre a vida de Vargas e como ele transformou a nação brasileira com seu legado. 
Getúlio Dornelles Vargas, nascido no dia 19 de abril de 1882, na cidade de São Borja, filho de um General que lutou na Guerra do Paraguai (Manuel do Nascimento Vargas) – e um político de destaque no Rio Grande do Sul. Ganhou projeção nacional durante a campanha presidencial de 1930 contrapondo as velhas práticas políticas da República Oligárquica. Derrotado nas urnas, seus aliados políticos alegaram fraude (que realmente houve) e iniciou-se um processo de revolução política. Inicialmente a Revolução de 1930 seria apenas um movimento entre as elites. Mas durante as operações não apenas militares, mas também civis, profissionais liberais e trabalhadores apoiaram os revolucionários. Em outubro de 1930 o movimento revolucionário foi vitorioso e Getúlio se tornou o chefe da nação. E o que antes parecia uma disputa entre elites de fazendeiros, mostrou-se o início de uma nova fase na história brasileira. Vargas como presidente incentivou a indústria, as leis sociais do trabalho, o voto da mulher e a criação de sindicatos.
Em 1937, as disputas entre integralistas(extrema-direita) e comunistas (esquerda eurocêntrica e pouco vinculada às necessidades brasileiras), obrigou Vargas a tomar medidas extremas. Em novembro decretou o Estado Novo que durou até 1945. Embora este período fosse um período de restrições, foi em 1942 (em pleno Estado Novo) que se instaurou a CLT: as leis do trabalho que ainda regulam os direitos e deveres de trabalhadores no nosso país. Em 1945 veio o fim do Estado Novo. Getúlio, nesta época, era amado(principalmente por sindicalistas e operários) e odiado por alguns setores empresariais(que o próprio Vargas estimulou com a sua política industrializante). 
Enquanto o país se organizava em bases democráticas, elegendo deputados para redigir uma constituição em 1945, Vargas decidiu criar um partido chamado Partido Social Democrático. Pelo nome do partido ele seria inspirado em doutrinas socialistas e de social-democracia, mas Vargas percebeu que o partido que criou estava sendo tomado pelos antigos burocratas e empresários, ambos de tendências conservadoras e que não davam espaço para os trabalhadores (a elite nunca perdoou Vargas pelas leis do trabalho– CLT). Neste sentido, Vargas decidiu criar um partido somente para esses setores operários que ganhavam cada vez mais força nas cidades, assim foi criado o Partido Trabalhista Brasileiro(o PTB – que não tem nada a ver com o PTB de hoje, somente o nome). O PTB, entre 1945 e 1950, conseguiu agregar muitos setores da esquerda nacionalista, inclusive alguns estudantes, como foi o caso de Leonel Brizola, e intelectuais, como Alberto Pasqualini (encarregado de elaborar a ideologia do trabalhismo brasileiro
Nas eleições de 1950, Vargas é eleito presidente; a voz do povo foi mais forte nas urnas. As forças da esquerda nacionalista estão do seu lado. As forças conservadoras e liberais, encabeçadas pelo partido UDN, são contrários a Vargas – até mesmo discutindo a possibilidade de golpe para impedir que Getúlio fosse empossado. Vargas governa o Brasil de forma democrática. Neste segundo governo Vargas(1951-1954) foram criadas as grandes estatais brasileiras: a PETROBRÁS, o BNDES e foi criada a proposta da ELETROBRAS (que só foi criada de fato no governo de João Goulart em 1962, seu projeto foi boicotado no governo Vargas). Além do que,  Vargas instituiu o aumento de 100% do salário dos trabalhadores – o que provocou a raiva do empresariado e a demissão do ministro João Goulart. 
A oposição udenista (da UDN) e os demais setores conservadores, lacaios do capitalismo estrangeiro, não queriam que o Brasil fosse um país independente. Assim, iniciou-se uma verdadeira campanha anti-Vargas, pela imprensa – sob o controle da direita golpista. Até hoje notamos que os jornais e as redes de TV são conservadores e reacionários. No dia 24, Vargas, pressionado pela direita, deu um tiro no próprio peito. Sua morte foi seu último gesto político: impediu um golpe militar. A população, comovida com a morte do “pai dos pobres”,  foi as ruas; no Rio de Janeiro e em Porto Alegre os jornais golpistas foram invadidos pela população em revolta. 
Ao contrário do que muitos pensavam, a morte de Vargas não enfraqueceu o trabalhismo, mas deu a ele uma força revigorante. Lideranças como Brizola e João Goulart, despontaram no cenário nacional e internacional. No início dos anos 1960, as Reformas de Base representavam um amplo projeto de nação que beneficiava os mais necessitados. Os setores conservadores, mais uma vez recorreram ao golpe. Em 1964, o golpe contra o trabalhismo deu  fim a implantação das Reformas de Base. Iniciou-se a ditadura mais violenta e cruel da história do Brasil, uma ditadura contra a bandeira trabalhista.  
Demorou mais de 15 anos para que o trabalhismo voltasse a se organizar. Brizola, um dos herdeiros de Vargas tentou retomar o PTB, mas uma manobra do regime militar, deu a sigla para um grupo conservador. Brizola, os trabalhistas e os socialistas fundaram então o Partido Democrático Trabalhista, o único e verdadeiro continuador da herança de Getúlio.  
Amado por uns, odiado por outros, Vargas é, sem sombra de dúvida, o mais importante estadista do século XX. Seu legado fez de políticos, como o próprio Brizola, representar o mais radical projeto de esquerda para o país. O trabalhismo autêntico, do PDT , é o verdadeiro legado de Vargas. E e ainda hoje o país carece de reformas que deem a seus cidadãos a verdadeira justiça social que tanto necessitamos.

O TRABALHISMO É O CAMINHO BRASILEIRO PARA O SOCIALISMO!


¹ Texto publicado no Folha Trabalhista, jornal da Juventude Socialista/PDT de Porto Alegre, mês de agosto.
*Historiador e militante da esquerda trabalhista da Juventude Socialista de Porto Alegre.
**Bisneto de Getúlio Vargas, estudante de Direito pela PUCRS e de Políticas Públicas pela UFRGS,  militante da esquerda trabalhista da Juventude Socialista de Porto Alegre.

terça-feira, 17 de junho de 2014

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Carta de Lisboa

A Carta de Lisboa, redigida em 17 de junho de 1979, é um dos principais documentos da história trabalhista.
Escrita por importantes líderes no exílio, o documento une num mesmo projeto para o Brasil os ideais trabalhistas e socialistas.
A intenção da Carta era refundar o velho PTB; mas após uma manobra política da ditadura (que deu a sigla PTB para um grupo de direita) os trabalhistas e socialistas fundaram o PDT.

Leitura obrigatória para nossa Juventude Socialista!

Abaixo o texto da Carta:

Reconhecendo que é urgente a tarefa de libertação do nosso povo, nós, brasileiros que optamos por uma solução trabalhista, nos encontramos em Lisboa. E se o fizemos fora do País, é porque o exílio arbitrário e desumano impediu este Encontro no lugar mais adequado: a Pátria brasileira. A tarefa de organizar com nosso povo um Partido verdadeiramente nacional, popular e democrático é cada vez mais premente. Não desconhecemos as permanentes tentativas das forças autoritárias de esmagar os movimentos dos trabalhadores. Mas o repositório de coragem e dignidade dos trabalhadores faz com que eles não se dobrem nem se iludam. E com eles estamos nós, Trabalhistas.

Não podemos deixar de salientar, também, que aqueles que defendem uma posição paciência, assim como a inoportunidade da luta contra a opressão, não são, exatamente os que se encontram em condições de sofrimento e perseguição, mas ao contrário, navegam nas águas da abastança e dos privilégios. Invoca-se, por outro lado, que a restauração da vida democrática e o ressurgimento de partidos autênticos dependem do sistema e de suas fórmulas jurídicas e legais. Consideramos, todavia, um ato de incompetência política e de deslealdade para com o nosso povo, aguardar as providências dos juristas do regime, de cujas fórmulas, somente por ingenuidade ou má fé, pode se esperar algo de diferente da vontade de institucionalizar a espoliação de nossa gente e a manutenção de uma estrutura política e econômica inaceitável para o povo brasileiro.

Fato novo mais importante da conjuntura brasileira não é nem a crise do regime, nem o fracasso de todos os seus projetos e promessas. 

O novo, importante e fundamental, é a emergência do povo trabalhador na vida política do País. Não de um povo amedrontado depois de 15 anos de opressão, mas de um povo que se organiza sob as mais variadas formas - nos sindicatos, nas associações, em comunidades, em movimentos e organizações profissionais - com o mesmo objetivo: o de lutar por seus direitos, pela democracia. Como parte desta emergência se deve destacar as conquistas do movimento estudantil, e a luta agora vitoriosa pela reorganização da UNE.

A experiência histórica nos ensina, de um lado, que nenhum partido pode chegar e se manter no governo sem contar com o povo organizado e, de outro lado, que as organizações populares não podem realizar suas aspirações sem partidos que as transformem em realidade através do poder do Estado. A falta de apoio popular organizado pode levar a situações a situações dramáticas como aquela que conduziu o Presidente Getúlio Vargas a dar um tiro em seu próprio peito.

Partidos e povo organizados constituem, por conseguinte, as duas condições fundamentais para a construção de uma sociedade democrática.

Analisando a conjuntura brasileira, concluímos pela necessidade de assumirmos a responsabilidade que exige o momento histórico e de convocarmos as forças comprometidas com os interesses dos oprimidos, dos marginalizados, de todos os trabalhadores brasileiros, para que nos somemos na tarefa da construção de um Partido Popular, Nacional e Democrático, o nosso PTB. Tarefa que não se improvisa, que não se impõe por decisão de minorias, mas que nasce do encontro do povo organizado com a iniciativa dos líderes identificados com a causa popular.

Nós, Trabalhistas, assumimos a responsabilidade desta convocatória, porque acreditamos que só através de um amplo debate, com a participação de todos, poderemos encontrar nosso caminho para a construção no Brasil de uma sociedade socialista, fraterna e solidária, em Democracia e em Liberdade.

Nós, Trabalhistas, queremos representar para o povo brasileiro o espírito da tolerância e da fraternidade. Nós, Trabalhistas, participamos ao lado do nosso povo em todas as suas lutas, e porque o nosso projeto é profundamente democrático, procuraremos alianças com as outras forças também democráticas e progressistas do nosso País. Nós, Trabalhistas, militaremos ativamente me todas as frentes e, porque o nosso projeto é pluralista, não pretendemos absorver ou manipular os sindicatos ou as organizações populares das mais diversas origens.

Entendemos a necessidade de um intenso debate para o desenvolvimento constante da Democracia e nós, Trabalhistas, estaremos sempre empenhados em discutir com todas as forças populares e democráticas do nosso País. É por isso que favorecemos o surgimento de outras organizações, que auspiciamos o aparecimento de outros partidos e que, nas nossas lutas, respeitaremos os seus princípios.

A consecução destes objetivos exige, como requisito prévio e fundamental no campo do pensamento e da cultura, a conquista da plena liberdade de criação intelectual, de expressão e de imprensa. Neste sentido, torna-se imprescindível a revogação de todas as formas de censura.

O grande desafio com que nós, Trabalhistas, nos defrontamos hoje é o de nos situarmos no quadro político brasileiro para exercer o papel renovador que desempenhávamos antes de 1964 e em razão do qual fomos proscritos. 

Com efeito, apesar de termos tido numerosas deficiências, não por ela que caímos. Fomos derrubados, isto sim, em virtude das bandeiras que levantamos. A velha classe dominante brasileira e os agentes internos do imperialismo, não nos podendo vencer pelo voto nos excluíram pelo golpe.

A verdade que afinal se fez evidente (depois copiosamente comprovada) é que o governo do Presidente João Goulart foi derrubado por uma ação conjugada. Os latifundiários temiam a lei da Reforma Agrária que, com a nossa presença no Congresso Nacional, seria inevitável. Por sua vez, o governo norte-americano de então planejou e coordenou o golpe para evitar a aplicação da lei de Remessa de Lucros que poria termo à espoliação do Brasil pelas empresas multinacionais.

O desafio com que nos defrontamos é, por conseguinte, o de retomar as bandeiras daquela tentativa generosa de empreender legalmente as reformas institucionais indispensáveis para liberar as energias do povo brasileiro. Especialmente uma reforma agrária que dê a terra a quem nela trabalha, em milhões de glebas de vinte a cem hectares, em lugar de entregá-las em províncias de meio, de um e até de mais de dois milhões de hectares na forma de super-latifundiários, subsidiados com recursos públicos. E termos também de levantar a bandeira da luta pela regulamentação do capital estrangeiro, para pôr fim à apropriação das riquezas nacionais e ao domínio das próprias empresas brasileiras pelas organizações internacionais.

O regime militar que sucedeu ao governo constitucional, sendo regressivo no plano histórico, se fez repressivo no plano político e, em conseqüência, totalmente infecundo e despótico. Apesar de contar com todo o poderio do arbítrio, legislando a nível constitucional da forma mais discriminatória, só fez acumular mais riqueza nas mãos dos mais ricos e mais no colo dos mais privilegiados. O bolo que tão reiteradamente prometeram repartir quando crescesse, agora o sabemos, é o de uma dívida externa gigantesca que montava a 3 bilhões de dólares em 1964 e hoje supera os 50 bilhões.

Nessas circunstâncias, o nosso primeiro compromisso é o de reconduzir o Brasil a uma institucionalidade democrática em que todo o poder emane do povo e seja por ele periodicamente controlado através de eleições livres e diretas, nas quais todos os brasileiros de maior idade sejam eleitores e elegíveis. O Brasil democrático pelo qual lutamos será uma República realmente federativa, com progressiva descentralização do poder, onde o voto terá que ser proporcional, para que - havendo a mais ampla representação das diversas forças políticas - não seja escamoteada a vontade popular. A República a que aspiramos há de estar defendida contra todo intento de golpismo e contra toda e qualquer manifestação de despotismo e repressão, para assegurar permanentemente ao povo brasileiro o direito elementar de viver sem medo e sem fome. 

Nosso segundo compromisso é o de levantar as bandeiras do Trabalhismo para reimplantar a liberdade sindical e o direito de greve, como os instrumentos fundamentais de luta de todos os que dependem do salário para viver. É dever também dos Trabalhistas lutar contra a brutal concentração da renda que responde inclusive pelo achatamento dos salários, fixados em índices falsificados e sempre inferiores ao aumento das taxas reais do custo de vida.

Será também preocupação primordial dos Trabalhistas a elaboração de uma nova legislação do trabalho que recupere as conquistas subtraídas pela ditadura e que permita a ampliação constante dos direitos dos trabalhadores. Nosso terceiro compromisso é de reverter as diretrizes da política econômica, com o objetivo de afirmar, em lugar do primado do lucro, a prioridade de dar satisfação às necessidades vitais do povo, especialmente as de alimentação, saúde, moradia, vestuário e educação. O resultado da orientação economicista até agora vigente é este contraste espantoso entre a super prosperidade das empresas - especialmente as estrangeiras - e o empobrecimento do povo brasileiro. Nos últimos anos, trabalhadores do campo se viram convertidos majoritariamente em bóias-frias que perambulam sem trabalho permanente, e trabalhadores nas cidades se viram transformados em massas marginalizadas que se concentram na porta das fábricas. Estas imensas multidões vivem em condições tão extremas de carência elementar que já têm sua sobrevivência biológica e sua saúde mental afetadas.

Por tudo isso é que devemos definir prontamente as forças de ação política e os procedimentos legais mais adequados para mobilizar o nosso povo para uma campanha de salvação nacional. Através dela, nós, Trabalhistas, buscaremos dar solução, dentro do prazo o mais breve possível, ao problema máximo de nossa Pátria, que é a marginalidade. Com efeito, um dos aspectos mais desumanos da política econômica da ditadura é a conversão da força de trabalho nacional num exército de excedentes. Nem a singela aspiração de um emprego permanente em que se ganha um salário-mínimo para a sobrevivência, o sistema pode assegurar. O drama social pungente dessas massas marginalizadas, que humilha e envergonha a Nação Brasileira, afeta, especialmente a quatro categorias de pessoas cujos problemas estão a exigir a atenção prioritária dos trabalhadores.

Primeiro, o de salvar os milhões de crianças abandonadas e famintas, que estão sendo condenadas à delinqüência; bem como o meio milhão de jovens que, anualmente, alcançam os dezoito anos de idade analfabetos e descrentes de sua Pátria.

Segundo, o de buscar as formas mais eficaz de fazer justiça aos negros e aos índios que, além da exploração geral de classe, sofrem uma discriminação racial e étnica, tanto mais injusta e dolorosa, porque sabemos que foi com suas energias e com seus corpos que se construiu a nacionalidade brasileira. Terceiro, o de dar a mais séria atenção às reivindicações da mulher brasileira, que jamais viu reconhecidos e equiparados seus direitos de pessoa humana, de cidadã e de trabalhadora; e que, além de ser vítima da exploração representada pela dupla jornada de trabalho, se vê submetida a toda sorte de vexames sempre que procura fazer valer seus direitos. 

Quarto, o de fazer com que todos os brasileiros assumamos a causa do povo trabalhador do norte e do nordeste, tanto por uma economia local obsoleta, como por um colonialismo interno exercido de forma escorchante pelas unidades mais ricas da federação e pelo próprio Governo Federal, que propicia sua exploração entregando às grandes empresas, na forma de subsídios para aumentar seus lucros, os recursos que deviam ser destinados àquelas populações extremamente carentes. 

No plano da ação política, duas tarefas se impõem com a maior urgência a todos os Trabalhistas. 

Em primeiro lugar, a luta por uma Anistia ampla, geral e irrestrita de todos os patriotas brasileiros perseguidos por sua resistência à ditadura. Este é o requisito indispensável à reunificação da comunidade nacional para a retomada do esforço conjunto para fazer do Brasil uma Pátria solidária de cidadãos livres, emancipados do medo, da ignorância e da penúria. 

Em segundo lugar , a luta pelo retorno à normalidade democrática que só se efetivará no Brasil quando após a reimplantação da liberdade de organização partidária o nosso povo eleger a Assembléia Nacional Constituinte. Reconhecemos as dificuldades para que nosso povo tenha uma participação efetiva. E por participação efetiva entendemos crítica via e permanente e não atuação eleitoral episódica ou simplesmente a adesão a propostas impostas verticalmente.

A proposta do novo Partido Trabalhista a ser discutida pelo nosso povo e formulada em território brasileiro, despida de soluções importadas, tem que levar em conta a necessidade de criar um partido que expresse os anseios e seja dirigido pelas classes populares. A nova proposta começa com a repulsa àqueles que vêem no ressurgimento do PTB uma sigla de fácil curso eleitoral. A nossa proposta tem um sentido claro de opção pelos oprimidos e marginalizados.

Neste particular e dentro de um horizonte que não é absolutamente cristão, mas marcado por um capitalismo impiedoso, impõe-se a nossa defesa constante dos pobres contra o ricos, ao lado dos oprimidos contra os poderosos.

Na luta a favor da justiça contra a opressão se insere a questão da atual ideologia de segurança nacional, que tem servido para justificar as violações dos direitos humanos. Tal doutrina gerou no País a mais completa insegurança para os cidadãos comuns, ensejando a expansão da brutalidade, da denúncia e da tortura, tanto contra os presos políticos, como contra as lideranças sindicais e sobretudo, com incidência cruel sobre as camadas mais pobres da população.

Porque damos importância central ao nosso povo como sujeito e criador do seu próprio futuro, sublinhamos o caráter coletivo, comunitário e não individualista da visão Trabalhista. 

A partir deste momento devemos concentrar todos os nossos esforços na preparação e organização do Congresso Nacional da organização do novo PTB, a realizar-se no Rio de Janeiro, no dia 19 de abril de 1980. 

No Congresso, recolheremos, através de nossas bases, as grandes aspirações e definições da vontade popular. 

Com o Congresso, continuaremos firmemente, sob a inspiração da Carta Testamento do Presidente Getúlio Vargas, a caminhada junto ao povo que nos levará à emancipação da Pátria. 

Lisboa, 17 de junho de 1979 

A.Mª. Doutel de Andrade, Ajadil de Lemos, Alberto Martins da Silva, Aldo Pinto, Alex Souza, Alfredo Hélio Sirkis, Almir Dutton Ferreira, Álvaro Petraco da Cunha, Anatailde de Paula Crespo, Anselmo Francisco Amaral, Antônia Gonçalves da Silva Oliveira, Antônio Alves de Moraes, Antônio Sérgio Monteiro, Artur José Poerner, Augusto Calmon Nogueira da Gama, Benedito Cerqueira, Calino Pacaheco, Carlos Augusto da Gama, Carlos Cunha Contursi, Carlos Fayal, Carlos Franco, Carlos Minc Baumfeld, César Behs, Chizuo Osava, Cibilis da Rocha Viana, Cláudio Augusto de Alencar Cunha, Clóvis Brigagão, Danilo Groff, Darcy Ribeiro, Derli M. Carvalho, Domingos Fernandes, Edmauro Gopfert, Eduardo de Azevedo Costa, Erasmo Chiapeta, Eric Nepobuceno, Eunice de Souza, Eva Ban, Fernando Perrone, Flávio Tavares, Francisca Brizola Rotta, Francisco Barreira, Francisco Dal Prá, Francisco Goulart Lopes de Almeida, Francisco Julião, Genival Tourinho, Georges Michel Sobrinho, Geraldo Lopes Burmeister, Getúlio Pereira Dias, Gil Cuneggato Marques, Haroldo Sanford Barros, Hélio Ricardo Carneiro da Fontoura, Herbert de Souza, Hildérico Pereira de Oliveira, Índio Vargas, Irany Campos, Irineu Garcia, Isaac Ajnhorn, J. G. de Araújo Jorge, Jackson Kepler Lago, João Vicente Goulart, José Wanderley, José Carlos de Oliveira, José Macedo de Alencar, José Maria Rabelo, José Maurício, Jorge Roberto da Silveira, José Carlos Rolo Venâncio, José Gomes Talarico, José Guimarães Neiva Moreira, Josino de Quadros Assis, Landa Maria Lopes de Almeida Ajnhorn, Leonel Brizola, Lúcio Rigo Marques, Luiz Alberto Moniz Bandeira, Luiz Carlos Soares Severo, Lygia de Azeredo Costa, Lysâneas Dias Maciel, Magnus Francisco Antunes Guimarães, Manoel Sarmento Barata, Marcelo Carvalho, Márcio W. de Almeida, Marco Antônio de Andrade Leão, Maria do Carmo Brito, Maria Margarida Parente Galamba de Oliveira, Maria Zélia Brizeno Costa Lima, Martha Maria Maurício Vianna, Matheus Schmidt, Maurílio Ferreira Lima, Maurício Vieira de Paiva, Miguel Bodea, Mila Cauduro, Moema São Thiago, Murilo Rocha Mendes, Neusa Goulart Brizola, Ney Ortiz Borges, Nielsen de Paula Pures, Norma Marzola, Olga Martins, Orlando Maretti, Osvaldo Lima Filho, Oswaldo Pimentel, Otávio Goulart Brizola, Paulo César Timm, Paulo Medeiros, Pedro Celso Ulhoa Cavalcanti Neto, Pedro Dietrich Júnior, Pedro Veronese, Raimundo Arroio, Ronaldo Dutra Machado, Saulo Saija, Sebastião Nery, Sereno Chaise, Tania Lyra, Tertuliano de Passos, Theotônio dos Santos, Trajano Ribeiro, Tuffik Mattar, Vânia Bamb
irra, Vera Mathias, Wilson Vargas da Silveira, Zoé Rodrigues Dias.



Fonte: http://www.pdt.org.br/uploads/noticias/lisboa3.jpg

sexta-feira, 30 de maio de 2014

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Guerrilha do Caparaó

O primeiro movimento guerrilheiro que tentou derrubar pelas armas a ditadura civil-militar, instalada em 1964, foi o de Caparaó, na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo.
Organizado pelo Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) e sob a inspiração de Leonel Brizola, a guerrilha acabou sendo derrotada após uma grande operação militar na área em 1967.

Abaixo segue o link para o documentário "Caparaó" de Flávio Frederico. 

https://www.youtube.com/watch?v=qGlbHfG8aGA

Vale a pena assistir!






sexta-feira, 25 de abril de 2014

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Hino Zapatista


Ya se mira el horizonte
Combatiente zapatista
El camino marcará
A los que vienen atrás
Vamos, vamos, vamos, vamos adelante
Para que salgamos en la lucha avante
Porque nuestra Patria grita y necesita
De todo el esfuerzo de los zapatistas
Hombres, niños y mujeres
El esfuerzo siempre haremos
Campesinos, los obreros
Todos juntos con el pueblo
Vamos, vamos, vamos, vamos adelante
Para que salgamos en la lucha avante
Porque nuestra Patria grita y necesita
De todo el esfuerzo de los zapatistas
Nuestro pueblo dice ya
Acabar la explotación
Nuestra historia exige ya
Lucha de liberación
Vamos, vamos, vamos, vamos adelante
Para que salgamos en la lucha avante
Porque nuestra Patria grita y necesita
De todo el esfuerzo de los zapatistas
Ejemplares hay que ser
Y seguir nuestra consigna
Que vivamos por la patria
O morir por la libertad
Vamos, vamos, vamos, vamos adelante
Para que salgamos en la lucha avante
Porque nuestra Patria grita y necesita
De todo el esfuerzo de los zapatistas.



terça-feira, 11 de março de 2014

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"O que é bom para a Globo é ruim para o Brasil"


O povo vaiou a Globo na avenida

O dia em que o povo vaiou a Rede Globo e aplaudiu Leonel Brizola na avenida


Classificada em sétimo lugar no desfile das escolas de samba do Grupo Especial em 2014, a Beija Flor não desfilou no último sábado no desfile das campeãs — o que não acontecia há 21 anos.
A escola levou para a avenida uma homenagem a Boni, “o astro iluminado da comunicação brasileira”, e à Globo. Foi vaiada. “Gritaram o nome de Brizola na avenida”, diz o diretor de carnaval e harmonia da escola, Laíla.
Levaram para o lado da política, e eu não suporto política. Nunca recebi 9 e alguma coisa com a escola cantando do jeito que cantou.”
Brizola, que foi governador do Rio, ficou célebre por dizer que o que é bom para a Globo é ruim para o Brasil.
Entre as celebridados da Globo que desfilaram na Beija Flor estavam Faustão, Renato Aragão, Toni Ramos, Angélica, Luciano Huck, Miguel Falabella, Regina Casé, Tarcísio Meira, Regina Duarte e Francisco Cuoco.

Leia abaixo o comentário de Paulo Nogueira, editor do DMC

Meu coração bateu mais alto quando soube que gritaram Brizola na avenida
Paulo Nogueira

A passagem mais interessante que conheço de política une as figuras opostas de Leonel Brizola e Roberto Marinho na cinematográfica sala de RM na sede da Globo.
Roberto Marinho era Roberto Marinho e Brizola era o governador do Rio, eleito mesmo com a trapaça – o caso Proconsult — que a Globo montou para desrespeitar a escolha do povo pelas urnas.
Batiam-se por mundos diferentes, e se detestavam abertamente. Roberto Marinho convidou um dia Brizola para um almoço, na tentativa de selar uma trégua.
Deu a Brizola – gaúcho — a vista mais linda do Rio e do Brasil, aquela que se tinha de sua sala, e se sentou do outro lado.
Depois de um breve tempo, Roberto Marinho disse: “Está provado que o senhor não gosta mesmo do Rio, governador. Eu lhe dei esta vista e o senhor não se dignou a olhá-la.”
Brizola imediatamente retrucou: “O senhor estraga qualquer vista, Doutor Roberto Marinho.”
Este era Brizola.
Fiquei tocado ao saber que seu nome foi gritado na avenida no Carnaval do Rio por pessoas inconformadas com a bajulação abjeta que a Beija Flor fez em seu desfile a Boni e, por extensão, à Globo.
Brizola venceu, mais uma vez.
A Beija Flor depois de muitos anos ficou fora do desfile das campeãs.
Brizola foi, ao lado de Getúlio Vargas, o maior político da história do Brasil.
Sabia que, para reformar o país, era preciso desmontar o símbolo supremo da iniquidade nacional – a Globo.
O que é bom para a Globo é ruim para o Brasil”, disse.
Corajoso, Brizola tentou convencer seu cunhado Jango a resistir militarmente ao golpe, a partir do Rio Grande do Sul, estado do qual ele fora governador.
Jango era menos combativo, e entendeu que a causa estava perdida: muitos brasileiros morreriam numa guerra civil, e a presença americana do lado dos golpistas impediria qualquer chance de evitar a queda da democracia.
Mas Brizola não se rendeu. Recebeu, durante algum tempo, recursos de Cuba para montar uma operação de resistência.
Documentos mostram que ele anotava, num papel, como era empregado cada centavo. Não, a direita não teria ali a chance de dizer que ele se apropriava dos fundos cubanos para tachá-lo de corrupto.
Era um brasileiro íntegro, um político visionário, um apóstolo da justiça social, e é uma imensa pena que não tenha, com a redemocratização, chegado à presidência.
Buscaram prejudicá-lo o tempo todo. A sigla que ele simbolizava como ninguém, o PTB, foi entregue a uma descendente inexpressiva de Vargas, e ele teve que inventar o PDT para continuar na vida política.
Votei nele em 1989, e foi para mim o fim da era da inocência política. Fiquei arrasado quando, por escassa margem de votos, ele não passou para o segundo turno.
Nunca mais senti o mesmo quando algum candidato em que votei foi batido.
Brizola disputou a segunda colocação, voto a voto, com Lula.
A vitória apertada de Lula como que selou o nome de quem representaria, dali por diante, a esquerda nacional.
Num exercício tolo, às vezes me pergunto o que teria ocorrido se Brizola tivesse ido para o segundo turno, em vez de Lula.
A Globo teria coragem de favorecer Collor e meter medo no oponente, no debate decisivo, com uma mala em que supostamente estavam denúncias?
A mala – com denúncias imaginárias – foi vital para que Lula tivesse um desempenho sofrível no debate. Cada vez que Collor se aproximava dela, Lula tremia.
Brizola, presumivelmente, teria denunciado a mala a todos os brasileiros em pleno debate, caso o mesmo golpe baixo fosse tentado contra ele.
A mim parece claro que, para o Brasil, a vitória de Brizola teria sido melhor que a de Lula em 1989.
Brizola teria enfrentado a Globo, para começo de conversa. Não por não gostar das novelas, ou da voz de Cid Moreira, ou das piadas de Faustão, mas por compreender que a Globo é a Bastilha brasileira, o símbolo da desigualdade e dos privilégios.
Enquanto a Globo não for desmontada pouca coisa se fará no avanço social brasileiro, porque a Globo é a guardiã dos privilégios com o esquema de controle que montou para monitorar a Justiça e o mundo político.
Lula fugiu da luta, e isso ficou claro quando compareceu ao enterro de Roberto Marinho – o homem da mala do debate com Collor – e fez ali uma eulogia vergonhosa. Completou o serviço decretanto luto oficial de três dias.
É uma pena que Lula seja pouco cobrado por um gesto pusilânime e oportunista que atrasou tanto o combate à desigualdade social.
Fosse cobrado, teria talvez caído em si, e a sociedade quem sabe ganhasse o prêmio de uma regulamentação de mídia que impeça uma só empresa de ter tanto poder em tantos meios.(Até o México enquadrou a Televisa, a Globo local.)
Voltei no tempo ao ler que gritaram o nome de Brizola na avenida, em repúdio ao endeusamento da Globo.
Por minutos, era um jovem jornalista de 33 anos, como em 89, e talvez meus olhos míopes tenham ficado marejados com a menção de Brizola, tanto tempo depois.

Detesto Carnaval, mas como eu queria estar naquele momento na avenida para gritar, com o povo, o nome dele, por tudo que podia ter sido e que não foi quando ele perdeu – Brizola, Brizola, Brizola.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

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Manifesto do Partido Comunista

Publicado em 1848, o Manifesto do Partido Comunista é um importante documento histórico para se entender a evolução das lutas dos trabalhadores na Europa. 
Escrito pelos jovens Karl Marx e Friedrich Engels, o Manifesto explica de forma bem clara a formação social capitalista na Europa pós-Revolução Francesa. A expansão da indústria, o aumento das cidades, o lucro dos capitalistas em contraste com a crescente miséria em que os trabalhadores viviam são temas abordados com todo o rigor crítico dos dois jovens filósofos alemães.

Um livrinho indispensável também para nós trabalhistas. 



O Manifesto está disponível gratuitamente na internet. Segue abaixo o link do Arquivo Marxista, onde é possível encontrar não só o Manifesto, mas muitos outros textos de pensadores marxistas; além dos textos do próprio Marx.

https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/index.htm